Universidade de Évora atribui Doutoramento Honoris Causa a Maria João Pires

A Universidade de Évora (UÉ) atribuiu hoje o Doutoramento Honoris Causa à pianista Maria João Pires, distinguindo “uma das mais notáveis pianistas da sua geração” e uma personalidade que transformou “a música numa forma rara de escuta, de exigência, de humanidade e de responsabilidade”.

A cerimónia decorreu na Sala dos Actos do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora e reuniu académicos, estudantes, músicos e diversas individualidades nacionais e regionais.

No discurso de abertura, o reitor da UÉ, António Candeias, afirmou que a distinção representa uma homenagem “não apenas a uma das maiores pianistas do nosso tempo, mas a uma personalidade que transformou a música numa forma rara de escuta, de exigência, de humanidade e de responsabilidade”.

Segundo o responsável, Maria João Pires recorda “algo de essencial” num tempo marcado “pela aceleração, pelo ruído e pela superficialidade”: que “a verdadeira criação exige silêncio, atenção, profundidade e tempo”.

António Candeias destacou ainda a “coerência humana” da relação da pianista com a música, sublinhando que “nunca separou a excelência artística da responsabilidade ética”.

O reitor salientou também os projetos pedagógicos e comunitários desenvolvidos pela artista ao longo das últimas décadas, bem como o trabalho com jovens músicos, baseado “na escuta, na cooperação e na partilha”, rejeitando modelos assentes exclusivamente na competição.

“A música, a arte, a cultura não são um adorno. Não podem ser um privilégio social. São uma forma de construção humana”, afirmou.

Na laudatio, a professora e pianista Ana Telles considerou Maria João Pires “uma das mais notáveis e sensíveis pianistas do seu tempo”, destacando uma carreira internacional iniciada após a vitória no Concurso Internacional Comemorativo do Bicentenário de Beethoven, em Bruxelas, em 1970.

Ana Telles recordou atuações em salas como o Carnegie Hall, em Nova Iorque, o Royal Festival Hall, em Londres, a Salle Pleyel, em Paris, e o Musikverein, em Viena.

A docente da Escola de Artes da UÉ sublinhou igualmente a dimensão pedagógica da pianista, referindo o seu trabalho recente com estudantes e músicos amadores e a recusa dos formatos tradicionais de “masterclass”, privilegiando encontros de partilha e aprendizagem.

Após a imposição das insígnias doutorais, Maria João Pires alertou, no seu discurso, para os riscos associados ao crescimento das inteligências artificiais generativas e à concentração de poder tecnológico e económico.

A pianista considerou existir o perigo de enfraquecimento “de princípios fundamentais das democracias, da liberdade de expressão, da diversidade de pensamento e do direito à escolha”.

“Não se trata de recusar a tecnologia nem o seu avanço. Trata-se de não abdicar da consciência”, afirmou.

Maria João Pires defendeu ainda a importância da pedagogia viva e da transmissão humana no ensino artístico, considerando que “ensinar e ser ensinado” constitui “uma das experiências humanas mais ricas”.

A artista agradeceu a distinção atribuída pela Universidade de Évora, afirmando recebê-la “como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana”.

Nascida em Lisboa em 1944, Maria João Pires começou a tocar piano aos três anos e deu o primeiro concerto público aos quatro. Estudou no Conservatório de Lisboa e posteriormente na Alemanha, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com uma carreira internacional consolidada desde os anos 1980, trabalhou com maestros como Claudio Abbado e gravou para editoras como a Erato e a Deutsche Grammophon.

Ao longo das últimas décadas, desenvolveu diversos projetos pedagógicos e sociais ligados à música e à educação artística, incluindo o Belgais – Centro para o Estudo das Artes, criado em 1999.

Os momentos musicais da cerimónia estiveram a cargo da Escola de Artes e do Coro da Universidade de Évora.